Romantização da Malandragem

Escrito por Assessoria Parlamentar

ROMANTIZAÇÃO DA MALANDRAGEM

2017-12-06 Romantizacao da Malandragem

Tema: Anúncio de realização de pesquisa, pelo Centro de Estudos e Pesquisas sobre Corrupção, da Universidade Estadual Paulista de Franca, Estado de São Paulo, sobre tendência do brasileiro de valorização da desonestidade e romantização da malandragem.

Data: 06/12/2017
Sessão: 381.3.55.O
Hora: 17:16

O SR. ANTONIO BULHÕES / PRB-SP, pronuncia o seguinte discurso:

Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, o Centro de Estudos e Pesquisas sobre Corrupção, da Universidade Estadual Paulista de Franca, constatou que a cultura brasileira valoriza a desonestidade.

Isso não significa que todos sejam desonestos, mas que a desonestidade é componente de nossas relações com familiares, vizinhos e concidadãos. A desonestidade é tradicional, e tem heróis antigos, como Pedro Malasartes, João Grilo e Macunaíma ou, para falar da história não ficcional, Lampião e Maria Bonita.

Romantizamos a malandragem, a violação da ética e das leis. Todos nós conhecemos o ditado “farinha pouca, meu pirão primeiro”. Todos conhecem a “lei de Gerson”, a lei não escrita que determina que devemos levar vantagem em tudo. Todos sabemos como funciona o “jeitinho brasileiro”, que, por meio de algum funcionário público conhecido,acelera processos e consegue vagas em escolas e hospitais.

Mesmo que nunca tenhamos usado esse “jeitinho”, é certo que esses favores indevidos nos cercam, na família, na vizinhança, no trabalho e até nas instituições estatais fiscalizadoras.
Estacionar em fila dupla, fraudar a receita, simular uma doença para emendar um feriado, esse tipo de coisa não é estranho à cultura brasileira. Neste exato momento, cidadãos estão furando a fila do atendimento médico, seja para fazer um exame de rotina, seja para fazer um transplante de órgão. Esse tipo de malandragem, que muitos aceitam como normal, certamente prejudica pessoas que teriam direito a um atendimento mais rápido. Prejudica a nós mesmos.

Por que fraudamos leis e códigos de conduta? Talvez por não conferirmos legitimidade a eles. Afinal, durante muito tempo fomos colônia de Portugal e depois, mesmo independentes, vivemos sob vários regimes autoritários. Em regimes autoritários, a transgressão às leis é vista como mérito.

Fraudar a lei e a ética, isto é, o Estado e a comunidade, talvez seja aceitável quando não reconhecemos a autoridade dos que fazem as leis. É aceitável, por exemplo, que um escravo sabote o seu dono ou que um país invadido sabote seus invasores.

Ora, esse tipo de comportamento tende a desaparecer à medida que as pessoas vão se dando conta de que vivem numa república democrática. Numa república, não existem súditos e soberanos, as duas figuras fundem-se na figura do cidadão, que é simultaneamente soberano e súdito dos destinos coletivos.

Cidadãos não têm por que enganar o Estado ou outros cidadãos. Os cidadãos são sócios de um mesmo empreendimento coletivo, que só dará certo se for conduzido com honestidade e confiança.

Felizmente, muitos brasileiros estão recusando essa cultura de malandros e mulheres de malandro, segundo a qual quem é roubado e parece que gosta de apanhar é o próprio povo.

Um Brasil novo está nascendo, com todas as dores do parto. Afinal, abdicar de parte de nossa cultura é como abdicar de parte de nossa alma. Não sabemos quando deixaremos de nos ver como o país da gambiarra e dos malandros, mas sabemos que esse é o único caminho que pode viabilizar nosso desenvolvimento econômico e democrático. E isso todo mundo quer.

Um dia, os malandros vão tornar-se, como a escravidão, coisa do passado. Ainda restarão, é claro, muitos partidários de líderes e seitas construídas em torno da malandragem. Mas a tendência é que o povo supere essa fase infantil e passe a marginalizar e a tirar poder e prestígio dos que insistirem em fraudar a ética e a lei.

Estou sendo otimista. Embora os malandros prejudiquem no curto prazo os outros cidadãos, no médio e no longo prazo queimam sua reputação e prejudicam mais a si próprios. Quero crer que o arrogante desprezo pela ética, pelas leis e pelas instituições esteja se tornando um aleijão do passado, um estigma dos velhos coronéis, cada vez menos aceito pela sociedade e suas instituições.

A malandragem, o desrespeito à ética, viola a moral. A corrupção, mais grave, viola a lei. Mas as duas, malandragem e corrupção, têm por fundamento o mesmo desprezo pela coletividade. Quando uma pessoa estaciona em fila dupla, supõe que o tempo dela valha mais do que o tempo da pessoa que teve o carro trancado. Se cidadãos que se julgam respeitáveis agem assim, não é de se estranhar que criminosos profissionais ajam com ainda menos respeito pela vida e pelo bolso alheio.

O Brasil é um dos países mais violentos do mundo. Pode-se dizer que parte dessa violência é causada pela pobreza, mas outra grande parte da violência tem origens na malandragem, na vontade de levar vantagem em tudo.

A malandragem torna o Brasil um dos piores países para fazer negócios e investimentos. Se as leis não são respeitadas, se sócios, funcionários e fornecedores são desonestos, se até os policiais e fiscais do Governo pedem propina, é óbvio que os custos aumentam e a produtividade diminui.

Essa situação não é benéfica para ninguém. Em terra de malandros, todos saem perdendo. Não é à toa que o Brasil inteiro recebe menos turistas do que a cidade de Miami. O ambiente da malandragem é o ambiente da insegurança. E ninguém gosta de ser feito de otário.

Enquanto prezarmos a malandragem, estaremos nos fazendo de otários. Temos de questionar, no âmbito individual e institucional, o “jeitinho” e outras formas de burlar os acordos feitos com os outros cidadãos.

A população que se diz indignada contra a corrupção é a mesma que joga papel no chão, suborna o guarda e estaciona na vaga dos deficientes. Enquanto nos fizermos de malandros, continuaremos a ser os otários do mundo, o país que há décadas desperdiça recursos naturais e humanos em nome de maracutaias e esquemas milagrosos que nunca dão certo.

Era o que eu tinha a dizer.

Obrigado.

ANTONIO BULHÕES
Deputado Federal / PRB-SP