Greve dos Caminhoneiros

Escrito por Assessoria Parlamentar

GREVE DOS CAMINHONEIROS

2018-06-13 Greve dos Caminhoneiros

Tema: Exemplos de solidariedade em ocasiões de grande comoção social ao redor do mundo. Crítica ao comportamento da sociedade brasileira durante recente greve dos caminhoneiros.

Data: 13/06/2018
Sessão: 152.4.55.O
Hora: 15:00

O SR. ANTONIO BULHÕES / PRB-SP, pronuncia o seguinte discurso:

Sras. e Srs. Deputados, em todo o mundo, ao longo da história, há exemplos de grandes calamidades que fizeram aflorar o melhor do ser humano. Nessas horas, movida pelo sentimento de solidariedade, a pessoa não mede esforços para aliviar o sofrimento do próximo, reforçando, dessa forma, os laços que unem a sociedade.

Nos Estados Unidos, em 2005, o Furacão Katrina deixou um rastro de destruição, registrado em imagens semelhantes às que só estávamos acostumados a ver em países do Terceiro Mundo. Em compensação, muitos comerciantes da região atingida, demonstrando grande civilidade, passaram a vender seus artigos a preço de custo, para ajudar as vítimas da tragédia.

No Japão, o tsunami de 2011 causou enormes prejuízos ao país e comprometeu o fornecimento de uma série de gêneros de subsistência à população. Entretanto, aquela grave situação foi contornada pelo fato de os japoneses terem respeitado a diretriz de comprar apenas o estritamente necessário, assegurando ao maior número de indivíduos o acesso a mercadorias básicas.

Na França, após os atentados terroristas de 2015, muitos parisienses abriram as portas de suas moradias para receber as pessoas que estivessem na rua e precisassem de abrigo; os motoristas de táxi se ofereceram para levar de volta à casa, de graça, quem tivesse dificuldade de encontrar outro meio de transporte.

E, na Itália, em 2016, depois de um forte terremoto ter praticamente devastado a região central do país, centenas de doações e de voluntários passaram a chegar às cidades afetadas. Entre as doações, foi comovente descobrir a de um grupo de refugiados estrangeiros, capazes de repartir o pouco de que dispunham com quem, na ocasião, parecia estar vivenciando experiência ainda mais desesperadora.

Não faltam exemplos, ao redor do mundo, de correntes de solidariedade formadas em ocasiões de grande comoção social. Enquanto relacionava esses que foram mencionados, lembrei uma história que circulava antigamente, meio em tom de piada, sobre um estrangeiro que visitou o Brasil e ficou maravilhado com o que viu quando chegou. Sua primeira impressão foi a de que, enquanto outros países, como o seu, tinham de sofrer os efeitos de furacões, terremotos e tempestades, aqui a natureza era bela e tranquila, com matas verdejantes, rios de águas límpidas e clima ameno. Até lhe pareceu uma grande injustiça, cometida durante a criação do mundo, que todas as coisas boas tivessem sido concentradas em um único lugar. Mas essa boa impressão foi se desfazendo à medida que o visitante estrangeiro passava a conhecer melhor os habitantes destas terras.

Embora possa até ser considerada meio exagerada e preconceituosa, essa história tem algo de verdadeiro. De modo geral, as atitudes de muitos de nossos compatriotas, no recente episódio da greve dos caminhoneiros, servem como indicadores bem fundamentados do comportamento da sociedade brasileira.

Infelizmente, pudemos testemunhar gente brigando em postos de combustível na tentativa de abastecer o seu veículo, em detrimento dos outros ali presentes, e gente correndo aos supermercados e esvaziando as prateleiras, para estocar produtos em casa, sem se preocupar com as necessidades dos demais consumidores. Era como se todos se norteassem pela máxima “farinha pouca, meu pirão primeiro”, tão reveladora de mentalidades egoístas e individualistas.

E não faltaram comerciantes para se aproveitar da situação de emergência e da falta de solidariedade da população. Em alguns postos, a gasolina chegou a ser vendida a R$ 9,99 o litro, em uma demonstração de ganância e de total falta de espírito público dos empresários.

Fatos semelhantes ocorreram com gêneros de primeira necessidade, como a batata, reajustada em 90%, e a alface, comercializada a R$ 7,00 o maço.

Que país é este?

Então as pessoas se comportam dessa maneira, procurando levar vantagem em um momento de grave crise, procurando garantir o seu, e o resto que se dane? E ainda vêm dizer que o problema do Brasil são os políticos?

É muito fácil atribuir aos outros a responsabilidade pelas próprias falhas. Assim, não é preciso fazer nenhum esforço pessoal. Foi interessante observar, durante essa greve, que a maioria da população apoiou os caminhoneiros, mas ficou irritada com a falta de combustível e de mantimentos e também com as altas de preços e as longas filas para abastecimento.

Será que ninguém percebeu que esses fatos estavam relacionados?

Se o brasileiro quer mesmo um país diferente, com menos corrupção, menos impostos e mais serviços públicos de qualidade, não adianta só ficar jogando a culpa nos outros e se queixando dos políticos. É preciso, antes de tudo, mudar o próprio comportamento.

Muito obrigado.

ANTONIO BULHÕES
Deputado Federal / PRB-SP