Crise hídrica e de energia

Escrito por Assessoria Parlamentar

CRISE HÍDRICA E DE ENERGIA

Tema: Apreensão e perplexidade diante da gravidade da crise hídrica no País

2015-02-10crisehidricaenergia

Data: 10/02/2015
Sessão: 008.1.55.O
Hora: 16:56

O SR. ANTONIO BULHÕES / PRB-SP, pronuncia o seguinte discurso:

Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, o ano começa com desafios imensos. O País tem à frente as suas dificuldades crônicas do ponto de vista estrutural, imperativos históricos, que mais uma vez desafiam os orçamentos, a criatividade e a boa gestão. E há também inúmeros problemas de outra ordem e outra etiologia que estão tirando o sono dos brasileiros. Entre eles, a crise hídrica, que não começou nesta estação, mas que no momento toma proporções assustadoras, especialmente no Sudeste. Engenheiros, ambientalistas, meteorologistas, governos e cidadãos estão perplexos.

Tomo o meu Estado por exemplo. São Paulo, Sr. Presidente, é hoje o emblema da perplexidade. Ao longo do último período chuvoso, compreendido entre outubro de 2013 e março de 2014, já se tinham sinais da catástrofe. Segundo dados do Instituto de Astronomia e Geofísica – IAG da Universidade de São Paulo – USP, aquela havia sido a temporada com menos chuvas desde a criação do Sistema Cantareira, em 1973. Mas ninguém imaginou que a atual temporada pudesse ser muito pior. Está sendo.

Agrava, no caso presente, que as chuvas, além de insuficientes, são sobremodo desiguais quanto à distribuição por áreas afetadas. A Região Metropolitana tende a receber mais chuva, em razão da ilha de calor formada pela grande densidade de núcleos urbanos. Aliás, fossem outras as condições da capital, a chuva que tem caído poderia ser aproveitada. Mas a poluição das superfícies causada pelo lixo, assim como a poluição de córregos e rios, muitos dos quais verdadeiros esgotos a céu aberto, inviabilizam qualquer iniciativa nesse sentido.

Enquanto isso, a situação nas áreas dos mananciais é dramática, com precipitações insuficientes. As previsões atestam que o Sistema Cantareira continuará a registrar chuvas abaixo da média pelo menos até abril, de acordo com o Grupo de Trabalho em Previsão Climática Sazonal, do Ministério de Ciência e Tecnologia.

Não chovendo o suficiente em todo o mês de fevereiro no Sudeste e no Centro-Oeste, o impacto sobre o fornecimento de energia será inevitável, porque água e energia são matérias indissociáveis quando se trata da matriz energética brasileira.

Em face disso, há uma pergunta que não quer calar: o Brasil vai parar? Ninguém sabe responder com precisão.
As perspectivas, obviamente, não são boas. A crise hídrica e, na sequência, a crise energética, terão impacto negativo no desempenho da economia em 2015. A mediana das projeções dos economistas ouvidos pelo Banco Central para o Relatório Focus da semana que passou foi de crescimento do Produto Interno Bruto – PIB deste ano de apenas 0,03%, algo bem próximo de zero. Na semana anterior, estava em 0,13%. Para 2016, a projeção também caiu, passou de 1,54% para 1,50%.

Sr. Presidente, não é verdade, em absoluto, que esta seja uma crise “democrática”, uma vez que coloca todos os cidadãos face a face com as mesmas necessidades. Não! A falta de água vai apenar mais intensamente os mais necessitados, que não terão como absorver a elevação do preço dos alimentos, tampouco da conta de luz. Esses brasileiros passarão a ter dificuldade em dispor do conforto doméstico propiciado por aparelhos e equipamentos a que tiveram acesso nos últimos anos e cujo uso vai sobrecarregar ainda mais o consumo de energia. O custo humano e social da crise será enorme.

O poder público, a sociedade, a ciência e tecnologia precisam se colocar à altura do desafio. A realidade mudou. O clima no mundo mudou.

No Brasil, vergonha maior, a Floresta Amazônica não é mais a mesma do que era há pelo menos quatro, cinco décadas, devastada que tem sido pela cobiça e pela falta de fiscalização. O exército formado por IBAMA, FUNAI e Polícia Federal não consegue reprimir o desmatamento. Árvores que levam mais de cem anos para crescer são torradas e viram carvão da noite para o dia.

Menos árvores no coração da Amazônia, menos bombeamento para a atmosfera de umidade, que vai se transformar em chuva nas regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil. Quanto maior o desmatamento, mais seca. Os reservatórios ficam vazios e não sai água das torneiras.

A guerra deve, assim, ser travada com várias armas: no caso do meio ambiente, com o rigor da lei e a punição; além disso, com bons projetos que otimizem os recursos hídricos, com racionalidade, com conscientização da população, que precisa ser efetivamente chamada a dar a sua contribuição. Mas, mais do que contribuir, a sociedade brasileira precisa dar a sua cota de sacrifício. Que seja, no entanto, uma cota também de caráter proativo, buscando soluções definitivas.

O sufoco de agora não pode se repetir.

Muito obrigado.

Sala das Sessões,

ANTONIO BULHÕES
Deputado Federal / PRB-SP