Corrupção Sistêmica no Estado Brasileiro

Escrito por Assessoria Parlamentar

CORRUPÇÃO SISTÊMICA NO ESTADO BRASILEIRO

2018-05-23 Corrupção Sistêmica no Estado Brasileiro

Tema: Corrupção Sistêmica no Estado Brasileiro

Data: 23/05/2018
Sessão: 123.4.55.O
Hora: 15:24

O SR. ANTONIO BULHÕES / PRB-SP, pronuncia o seguinte discurso:

Sras. e Srs. Deputados, a corrupção sistêmica do Estado brasileiro foi revelada a todos, de forma escancarada. Muitos ficaram chocados; outros, e não poucos, acham que o Brasil é assim mesmo, e que devemos ser tolerantes.

Ao lado dessa corrupção entranhada no Estado, sistêmica, há os pequenos atos de corrupção disseminados na vida cotidiana. O pedido de um favor pessoal a um funcionário público; a ultrapassagem pelo acostamento; a sonegação de informações aos fiscais da Receita. Enfim, pequenas malandragens, cometidas pelos mesmos cidadãos que reclamam de seus políticos e instituições.

Na verdade, a corrupção sistêmica, do Estado, e a corrupção endêmica, espalhada entre os cidadãos, não estão isoladas: elas se retroalimentam. A malandragem da sociedade gera a malandragem dentro da máquina estatal. E um Estado corrupto estimula a corrupção dos cidadãos, fechando o círculo vicioso.

Muitos cidadãos cometem, sem se dar conta, pequenos delitos contra a sociedade. Trafegam pelo acostamento, furam filas, pedem um favor especial para um amigo ou parente numa repartição pública. Mesmo que esses favores e essas pequenas contravenções não impliquem pagamento em dinheiro, ou que nem sejam crimes, estamos também diante de atos de corrupção.

A corrupção não tem sua origem no descumprimento às leis. Tem origem no desprezo pela ética ou, digamos assim, numa ética “flexível”. Quando falamos do “jeitinho brasileiro”, estamos tratando de uma característica cultural que tem lados negativos e positivos. O lado positivo é a adaptabilidade; o negativo, porém, é a excessiva condescendência.

Se marco uma reunião e chego 5 minutos atrasado, tudo bem; mas, se demoro mais de 15 minutos ou nem apareço, estou fazendo os outros perderem tempo. Quantas vezes perdemos a manhã esperando um profissional que marcou conosco, mas não se dignou nem a telefonar para avisar do atraso ou da ausência? Esse tipo de “flexibilidade” causa transtornos e prejuízos grandes às pessoas e às empresas, e diminui a produtividade de nossa economia.

A displicência para com o interesse dos outros faz parte de uma cultura em que as normas éticas e legais são flexíveis, permitindo, por exemplo, que alguns furem a fila do supermercado ou no trânsito. Agindo dessa forma, não estamos roubando apenas o tempo daqueles que estavam na frente da fila, mas até a vida alheia – como no caso de uma fila para transplantes de órgãos. O “jeitinho” na hora de cumprir com nossas obrigações significa prejuízos não apenas monetários, mas também a vidas humanas.

O culto à malandragem está presente nos sambas, nos filmes, e até mesmo na forma como é tratada nossa história e política. O Zé Carioca, o sujeito que não paga suas dívidas nem honra seus compromissos, o anti-herói que sempre leva vantagem em tudo, o malandro que não paga o bonde, é um herói de histórias infantis. É o “esperto”, aquele que faz o que supostamente todo mundo faz.

Quadrilhas de bandoleiros, como a de Lampião, são tratadas como se roubassem dos ricos para dar aos pobres, o que não é verdade. Como não é verdade que eleger o sujeito que “rouba, mas faz” seja uma vantagem para aqueles que estão sendo roubados. Em meio a essa cultura, o cidadão honesto é tratado como otário: o caxias, o aluno que estuda para a prova em vez de colar, o cidadão que faz questão de pagar os seus impostos.

Senhoras e senhores, esse culto à malandragem existe, embora em menor grau, também em outros países. Mas no Brasil valorizamos excessivamente a malandragem, talvez como herança do tempo em que o Brasil não era uma democracia. Afinal, se o Governo não é meu legítimo representante, se as leis são feitas por pessoas que não representam a população, é normal que a população se sinta no direito de desrespeitar essas regras.

Porém, quero ter a esperança de que, na medida em que o País for aprofundando sua democracia, mais e mais pessoas percebam que o Executivo, o Legislativo e o Judiciário são reflexo e responsabilidade dos cidadãos; percebam que o dinheiro público é dinheiro de sua carteira, e que as leis não foram impostas por uma ditadura, mas por uma democracia que representa seus interesses.

Na medida em que eliminemos a corrupção de nossa vida diária e paremos de tolerar a corrupção na política e no serviço público, teremos governos melhores, polícias melhores, enfim, uma sociedade melhor.

Se queremos melhorar o Brasil, temos de começar a melhorar a nós mesmos – pensar globalmente, agir localmente.

Obrigado.

ANTONIO BULHÕES
Deputado Federal / PRB-SP