A Sociedade e a Democracia

Escrito por Assessoria Parlamentar

A SOCIEDADE E A DEMOCRACIA

2017-03-21 A Sociedade e a Democracia

Tema: Responsabilidade da sociedade pela manutenção da democracia.

Data: 21/03/2017
Sessão: 040.3.55.O
Hora: 20:14

O SR. ANTONIO BULHÕES / PRB-SP, pronuncia o seguinte discurso:

Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, a democracia não é feita apenas pelos votos e pelos Poderes Republicanos. Isso existe até em Cuba e na Coreia do Norte, que são ditaduras.

A democracia é feita principalmente nas ruas, pelo cotidiano de todos nós. A liberdade de expressão, em palavras e atos, constrói a democracia, assim como nós a construímos nesta Casa, por meio de legislação.

A democracia é o governo que emana de todos, de cada um dos brasileiros, e não apenas dos políticos, seus representantes formais. Apesar disso, grande parte da opinião pública trata com desdém a classe política, como se nós fôssemos extraterrestres ou nada tivéssemos a ver com a história do Brasil e com os defeitos do Brasil – aliás, com os defeitos presentes em cidadãos e sociedades do mundo todo.

Pesquisa realizada nos Estados Unidos, no fim do século passado, constatou que 99% dos cidadãos daquele país haviam cometido algum crime que os levaria à prisão, se fosse descoberto: sonegação fiscal, uso de drogas, dirigir sob efeito de bebidas etc. Apesar disso, a democracia dos Estados Unidos tem se aperfeiçoado.

A democracia não é o governo dos puros. Toda tentativa de se fazer um governo, ou um povo ideal, levou ao autoritarismo e às ditaduras. Os políticos, e a política, têm defeitos que refletem a sociedade. Não podemos ser muito diferentes de nossos eleitores, ou não seríamos eleitos. Além disso, todo suposto defeito que é mantido pela sociedade tem alguma razão de existir, caso contrário não seria mantido.

Vejamos, por exemplo, o patrimonialismo, isto é, a confusão que se faz entre o público e o privado. Idealmente, os políticos seriam eleitos para tratar exclusivamente de assuntos públicos, impessoais, sem considerações a respeito de seus eleitores individuais. Na prática, porém, os eleitores cobram dos políticos favores pessoais, para suas famílias, corporações e lugar de moradia. Isso é bom ou ruim? Certamente é ruim, se pensarmos num sistema ideal, mas é o melhor que temos, se considerarmos a história do Brasil. Não podemos desprezar a democracia por ser imperfeita. Não podemos jogar fora o bebê com a água do banho, como se diz.

Muitos dos brasileiros que pedem o fim da corrupção são corruptos no seu dia a dia. Muitos dos que falam “bandido bom é bandido morto” estavam entre os saqueadores que se aproveitaram da greve dos policiais no Espírito Santo. Grande parte de nossa população descumpre intencionalmente a lei, estaciona em vagas reservadas a deficientes ou idosos sem ter esse direito, estaciona em fila dupla etc.

Evidentemente, não estou dizendo que todo o povo, ou todo o Congresso, é desonesto. Estou dizendo que a classe política e a sociedade como um todo refletem-se mutuamente, e que quando a população culpa os políticos, vê em nós, projeta em nós aquilo que ela não quer admitir como defeito seu.

De qualquer forma, para preservarmos a democracia, e a aperfeiçoarmos, o problema central não é a corrupção. O problema central é que, em nome do moralismo ou de outra bandeira ideológica, as pessoas abram mão de liberdades como a de expressão.

Mussolini e os fascistas tinham uma plataforma moralista – prometeram e cumpriram, por exemplo, que os trens sempre chegariam no horário. Stálin ou Hitler não eram especialmente desonestos. O problema desses ditadores, e de outros, como Mao ou Fidel, é justamente a pretensão de reformar a sociedade e produzir um homem novo, livre dos vícios do passado.

Claro que há corrupção em Cuba e na Venezuela; mas esse não é o principal problema daquelas ditaduras, como também não é o principal problema da democracia brasileira.

Corrupção certamente é ruim, mas existe na política desde que existe política. De qualquer forma, não há dúvida de que precisamos combater a corrupção, mesmo em suas variáveis mais difíceis de serem caracterizadas. Nós políticos estamos no palco dessa evolução dos costumes e da democracia brasileira, mas quem escreve o enredo e dirige a encenação é o povo brasileiro, as instituições, a imprensa.

Este o meu recado: quando a população culpa os atores políticos pela baixa qualidade do espetáculo, está apontando o dedo para si mesma, autora e diretora de seu destino. Precisamos conscientizar-nos disso, senhoras e senhores.

Obrigado.

ANTONIO BULHÕES
Deputado Federal / PRB-SP